Compilação de notícias e fotografias do Sérgio Sousa da jornada de protesto contra a precariedade em Setúbal

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Notícias em actualização, aqui.

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Jornada de Protesto contra a Precariedade no Porto de Setúbal

A PRECARIEDADE é um cancro nacional, uma doença espalhada por todo o mundo laboral, originada por uma legislação permissiva, supostamente dissuasora de tais práticas, mas facilmente contornada por habilidosas engenharias contratuais, tanto por parte do Estado como por parte de diversas empresas do sector privado.

Saudamos as recentes declarações públicas de detentores de altos cargos políticos bem como as alterações legislativas, infelizmente bastante tímidas, que têm sido introduzidas nos últimos tempos, principalmente no que respeita ao sector público, mas a procura da melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores e das suas famílias não se compadece com agendas que não atendem à necessidade urgente de eliminar esta doença laboral com terríveis implicações sociais, limitativa de um futuro melhor para uma enorme parte da população.

A vergonhosa legislação do trabalho portuário publicada em 2013 a qual, lamentavelmente, ainda se encontra em vigor, veio potenciar a disseminação, em larga escala, desta precariedade crónica pelos diferentes portos nacionais, sendo o porto de Setúbal o seu expoente máximo.

Como exemplos ilustrativos desta realidade, existem inúmeros estivadores “precários” a trabalhar de forma continuada há praticamente um quarto de século no porto de Setúbal tendo estes trabalhadores, nalguns casos, colocações praticamente idênticas às dos trabalhadores efectivos, o que demonstra que a sua utilização não é para fazer face a acréscimos pontuais de trabalho, tal como existem registos de dias em que as operações portuárias são asseguradas por mais de duas centenas de estivadores “precários”, ao mesmo tempo que os estivadores com contrato sem termo utilizados nessas operações não atingem as duas dezenas.

Esta prática doentia está tão arreigada nas empresas deste porto que, face ao recente acréscimo de necessidade de mão-de-obra motivada pelo aumento sustentado no número de viaturas embarcadas, em grande parte montadas na AutoEuropa, a solução encontrada tem sido a de recrutar mais dezenas de “precários” sem que o estatuto daqueles que trabalham há décadas no porto, nesta incerteza diária, seja minimamente alterado.

Existem outras razões para o dia de greve declarado, constantes do pré-aviso de greve, a mais grave das quais será a existência de uma dupla carreira salarial a aplicar consoante a “geração” de estivadores efectivos a que se destina, ou seja, para categorias e funções iguais existem estivadores com duas carreiras diferentes, mas apenas em termos salariais.

Face à ganância pelo lucro por parte do capital e ao fechar de olhos dos organismos oficiais perante estas situações perversas, a raiar a escravatura e que se arrastam há décadas, decidimos declarar uma
Jornada de Protesto contra a Precariedade no porto de Setúbal
a qual se consubstanciará numa greve de 24 horas, a partir das 8 horas de amanhã, dia 5 de Junho.

Lisboa, 04 de Junho de 2018

A DIRECÇÃO

Pode consultar o pré-aviso na íntegra aqui.

Estivadores de Lisboa avançam para greve ao trabalho suplementar em conflito com o congelamento salarial, violações ao contrato colectivo de trabalho e práticas anti-sindicais

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Os estivadores do porto de Lisboa iniciam na próxima segunda-feira, dia 21 de Maio, duas semanas de greve à prestação de todo e qualquer trabalho suplementar, ou seja, a todo e qualquer trabalho que ultrapasse o período normal de trabalho, em dias úteis.

Embora o respectivo pré-aviso já tivesse sido emitido no passado dia 06 de Maio, optámos por não fazer logo a divulgação pública do mesmo porque conhecemos bem, do passado, a imagem negativa e deturpada que muitos “especialistas”, ao serviço de outros interesses, tentam transmitir da actividade do porto comercial, desde os lobbies da especulação imobiliária até aos adeptos do crescimento descontrolado e avassalador do turismo de massas, em prejuízo de actividades económicas e sociais tão importantes como são, incontestavelmente, os diversos terminais que constituem o milenar porto comercial, fundador da capital, desvalorizando esta actividade estratégica e a sua importância para a cidade de Lisboa, a região que a envolve e mesmo para todo o País.

Embora as matérias em discussão entre os parceiros sociais de Lisboa fossem críticas para o funcionamento harmonioso deste porto, restava-nos algum optimismo moderado para que fosse possível atingir um entendimento global na reunião realizada ontem, a última que seria possível realizar antes de a anunciada greve se tornar efectiva.

Para nosso espanto, chegou ao nosso conhecimento que, na véspera da reunião, o grupo Yilport tinha subido mais um degrau nas suas práticas anti-sindicais determinando que seria averbada falta injustificada e, adicionalmente, seria impedido de retomar o trabalho nas 24 horas seguintes, qualquer trabalhador, dos seus quadros ou da pool, que não comparecesse na empresa em virtude da realização de qualquer reunião de trabalhadores que as mesmas, unilateral e discricionariamente considerassem “ilegal”.

Estas práticas anti-sindicais que, com contornos diferentes, se verificam também noutros portos nacionais, as quais estão sob investigação do Ministério Público, já constam aliás do ponto iv da alínea d) do pré-aviso porque, como consequência das reuniões de trabalhadores realizadas nos últimos meses, as empresas desse grupo já tinham averbado faltas injustificadas a alguns dos seus trabalhadores – bem como a trabalhadores da pool de estivadores que as servem – alguns dos quais nunca na sua carreira de décadas tinham tido esse tipo de faltas, porque a realização das reuniões de trabalhadores promovidas pelo Sindicato sempre foi prática normal e respeitada pelas empresas, desde que avisadas nos prazos legais como, naturalmente, sempre foram.

Considerando este Sindicato que a determinação destes procedimentos em véspera da realização da reunião agendada para ontem configurava, para além de uma reiterada prática anti-sindical, uma clara provocação a este Sindicato e aos trabalhadores que representa, exigimos que este ponto fosse clarificado e corrigido previamente.

A discussão deste ponto prévio, durante horas, não permitiu a entrada nos restantes pontos do pré-aviso porque o representante da empresa do grupo Yilport se dividiu entre as ordens que alegadamente teria que receber de Istambul e a sua argumentação jurídica tão radical e incompreensível que nem os seus próprios pares a corroboram.

Os estivadores não são caixas de supermercado – profissionais que respeitamos e a quem queremos transmitir a nossa solidariedade por conseguirem trabalhar num ambiente laboral adverso onde até já o descanso no 1º de Maio, dia dos trabalhadores, lhes é negado – mas não aceitam qualquer limitação aos seus direitos de reunirem com os trabalhadores seus associados, uma das nossas imagens de marca, mas aspecto essencial para discutir, deliberar e organizar a defesa colectiva de quem trabalha.

Muitos outros aspectos gravosos nos dividem, mas pensamos que existe vontade colectiva das restantes empresas do porto, bem como das entidades oficiais – porque tal sentimento nos transmitiram – para ultrapassar este diferendo complexo, mas com posturas rígidas, prepotentes e simultaneamente infantis e desconhecedoras da realidade, como aquelas com que ontem todos nos deparámos, não será certamente possível alcançar qualquer entendimento.

Lisboa, 18 de Maio de 2018

A Direcção do SEAL

O Pré-Aviso por ser consultado aqui AQUI.

Manifesto contra o transporte de animais vivos

O transporte de animais vivos sempre foi uma realidade presente nos portos portugueses, principalmente no que se refere ao transporte de bovinos deste o Arquipélago dos Açores até alguns portos do Continente, quase exclusivamente Lisboa e Leixões.

As condições do referido transporte de animais, comércio importante para a economia dessa região, embora continue a ser realizado em condições deficientes, melhorou substancialmente nas últimas décadas, o que se comprova pelo menor número de animais acidentados ou mortos durante o referido transporte.

A verdade é que tal transporte de animais vivos com origem nos Açores, que deveria ser acompanhado, a bordo, por um responsável da área da saúde veterinária, resulta sempre numa considerável perda das condições físicas e de saúde de tais animais.

Muito haverá ainda a melhorar nas condições de transporte de animais vivos dentro do território nacional enquanto não se optar pelo transporte generalizado e desejável do transporte das respectivas carcaças em adequadas condições de refrigeração ou congelamento, a não ser que se trate de animais para reprodução, naturalmente.

Mas, não é o referido transporte de animais a razão de fundo para este nosso Manifesto.

Assistimos no decurso dos últimos meses ao aparecimento e intensificação de um novo tipo de negócios que envolve a exportação de dezenas de milhares de animais vivos, mensalmente, para diversos países do Médio Oriente e Norte de África.

À volta das diversas envolventes deste novo negócio exportador, temos vindo a constatar uma série de situações e comportamentos inaceitáveis, relativamente aos quais não nos podemos manter indiferentes

  • No embarque – a forma degradante como estes carregamentos de navios se realizam, com os animais a serem frequentemente sujeitos a práticas brutais e desumanas, nomeadamente a projecção desses animais desde alturas consideráveis até ao solo, a partir dos veículos transportadores, causa de ferimentos nos mesmos que inclusive conduzem ao seu abatimento imediato, ou a prática constante de torturas nesses animais através da aplicação gratuita e contínua de fortes choques eléctricos. Esclarecemos, a partir da nossa própria experiência, que estas práticas abomináveis não envolvem directamente estivadores porque são os próprios produtores e/ou transportadores rodoviários dos animais a infligir as brutais práticas referidas, excluindo das mesmas operações de carregamento a bordo, de forma irregular se não mesmo ilegal, os profissionais da estiva;
  • No transporte marítimo – deficientes condições de transporte a bordo de navios, muitas vezes totalmente desprovidos de condições ambientais e sanitárias mínimas, num acondicionamento espacial exíguo, simultaneamente imundo e doentio, sem acompanhamento de qualquer responsável oficial na área veterinária dos cuidados de saúde animal. Não nos parece defensável que em viagens de vários dias ou mesmo semanas pelo Mediterrâneo, através de mar tantas vezes alteroso, animais vivos viajem compactados, muitos deles feridos, algumas vezes sobrevivendo no meio de mortos, todos atolados na espessura das suas próprias imundícies. No decurso de viagens mais tempestuosas, animais mortos, e quem sabe se feridos, são pura e simplesmente atirados borda fora, qual lixo;
  • Na descarga – existem provas irrefutáveis de que a descarga destes animais nos portos de destino acontece frequentemente associada a condições deploráveis, até mesmo a práticas violentas e brutais, em circunstâncias e num ambiente local normal, porque muitos destes países importadores não são reconhecidos como grandes respeitadores da qualidade da vida e da morte dos animais.

Não nos queremos envolver nas questões ambientais que envolvem a produção massificada de animais para abate e consumo alimentar, mas …

Em pleno século XXI existem meios mais “civilizados” para fazer chegar proteínas na forma de carne, em condições higienicamente certificadas, desde os centros de produção, como será o caso de partes do território nacional, até países reconhecidamente com menos condições para essa produção, mas cujas populações têm o mesmo direito que nós a aceder a tais produtos em adequadas condições de saúde pública.

Nem servirá de atenuante a exigência dos importadores para que a carne dos animais para consumo humano seja abatida segundo rituais específicos associados a práticas religiosas diferenciadas, porque sabemos ser perfeitamente possível associar e certificar tais práticas ao abate controlado no país de origem.

Não se leia neste Manifesto qualquer rejeição absoluta contra o trabalho e iniciativa dos produtores pecuários nacionais. Não é disso que se trata. Desconhecemos em absoluto o valor que estes contratos representam para os mesmos e para a economia nacional, mas não temos quaisquer dúvidas de que até acrescentaria imensas mais valias e criaria bastantes mais empregos exportar carne proveniente de abates certificados em todas as vertentes, incluídos os rituais exigidos, embalada, acondicionada e transportada em equipamentos geradores de frio, contentores e navios incluídos, por forma a chegarem a estas populações, mais carenciadas dos necessários meios de produção pecuária, de forma tão saudável com exigimos que chegue à nossa mesa, mais concretamente à mesa de quem não optou ainda por formas alternativas para se alimentar.

Em conclusão, e atendendo a tudo aquilo que foi referido, que resume muitas situações sobre as quais existem documentos, relatos e imagens reais suficientemente eloquentes, o SEAL, Sindicato Nacional que representa os estivadores portugueses, para além de outras profissões que desenvolvem a sua actividade profissional nos portos e outras áreas logísticas do território nacional declara todo o seu apoio à declaração de objecção de consciência que, individual ou colectivamente, os seus associados lhe transmitam, com conhecimento para as respectivas empresas, quanto à sua indisponibilidade e consequente recusa de intervenção profissional em operações de embarque de animais vivos, apela a todos os agentes políticos para que legislem, regulamentem, fiscalizem e, no limite, impeçam por todos os meios legais ao seu alcance a continuação de mais esta barbárie do século XXI, nas actuais condições, que ninguém responsável pode continuar a invocar desconhecer.

Lisboa, 07 de Maio de 2018,

A Direcção do SEAL

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO | Desmontagem do torpedo PSD-850h no ataque terrorista à cidade portuária de Lisboa

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O seu governo acaba de publicar um despacho que autoriza que trabalhadores possam trabalhar cinco meses mais num ano do que aquilo que é normal, fazendo 850 horas de trabalho extraordinário. Acha razoável?
Hugo Soares, líder parlamentar do PSD

O SEAL evita envolver-se em questões de retórica política, como as que se verificam entre Governo e Partidos, mas também não aceita ser vergonhosamente envolvido em terreno pantanoso – tal como se verificou durante o último debate quinzenal na Assembleia da República – aquando da interpelação ao senhor Primeiro Ministro por parte do líder parlamentar do PSD.

Independentemente da resposta política que o Primeiro Ministro entendeu dar, de apoio e solidariedade à sua equipa ministerial, mais tarde completada por um comunicado do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, temos a obrigação de explicar aos portugueses as nossas opções negociais porque não aceitamos participar na produção da cortina de fumo tóxico provocada por aprendizes de incendiários.

Embora as referidas opções sejam do estrito foro negocial entre os parceiros negociais do sector, estas resultam de um enquadramento muito específico do sector portuário e de um conjunto de factores verificados num momento critico do funcionamento do porto de Lisboa.

Factores específicos que não podem ser desconhecidos pelo PSD, não só pela sua anterior e nefasta governação, mas também porque resultam de uma Lei do Trabalho Portuário de sua iniciativa, favorável aos patrões e que ainda permanece inalterada. A referida lei esteve na origem de múltiplos despedimentos, da degradação das condições laborais dos estivadores e da generalização e perpetuação da precariedade nos nossos portos, contra a qual este Sindicato luta há décadas.

Mas, regressando ao tema do limite máximo das 850 horas de trabalho suplementar acordadas entre os parceiros sociais do porto de Lisboa e suas envolventes, directas e indirectas, o mesmo indignado PSD que levantou esta questão do alegado abuso que representariam as 850 horas de trabalho suplementar, oculta outros factos:

  • Sabia que durante os governos PSD, os estivadores de Lisboa, e de todos os portos nacionais, não tinham limites relativamente ao volume de trabalho suplementar realizado, existindo instruções superiores para não fiscalizar o sector portuário, de modo a que os estivadores de Lisboa se vissem individualmente obrigados a 2000, 3000 ou mais horas de trabalho suplementar por ano? Sabia que nesse anterior contexto PSDde milhares de horas de trabalho suplementar realizadas anualmente, foram levantados processos disciplinares a estivadores que faltassem à aprestação desse mesmo trabalho suplementar?
  • Sabia que durante o consulado PSD foi emitido um parecer favorável por parte do IMT – Instituto da Mobilidade e Transportes, relativamente a um estudo “científico” dos patrões de Leixões que defendia que o trabalho em Sábados, Domingos e Feriados não deveria ser considerado suplementar, parecer esse que é claramente violador da Lei? Sabia que essas brilhantes conclusões foram vertidas para um CCT homologado pelos ministros dos Transportes e do Trabalho do governo Passos/Portas e que assim, já nesse tempo, o PSD sancionava que qualquer trabalho no porto de Leixões realizado em sábados, domingos e feriados, não seria considerado trabalho suplementar?
  • Sabia que, a coberto de tal miraculosa transmutação, de legalidade mais que duvidosa, essas alterações acordadas em 2014 ao Contrato Colectivo de Trabalho, mas ainda em vigor, determinam que os volumes de trabalho suplementar no porto de Leixões tenham limites paradoxalmente infinitos, ou seja que, para além do limite das 250 horas de trabalho suplementar, legalmente consagradas, se lhes possam adicionar 2.760 horas relativas a S/D/F, num limite total superior a 3.000 horas?
  • Sabia que, no porto-modelo de Leixões, para o PSD e para os interesses do capital que representa, praticamente sem limites de trabalho suplementar para muitos dos seus trabalhadores, tal trabalho é vedado à esmagadora maioria dos associados do SEAL, o que representa uma clara e criminosa discriminação em virtude da filiação sindical?
  • Sabia que os vereadores do PSD na Câmara Municipal de Lisboa apresentaram uma moção em reunião do executivo, no dia 14 de Dezembro de 2017, a qual pretendia “estabelecer que, num prazo razoável não muito longo, o movimento de contentores na Área Metropolitana de Lisboa saia de Alcântara”, moção essa que foi em boa hora rejeitada?
  • Sabia que, por coincidência, ao contrário dos investimentos, públicos e/ou privados, anunciados e autorizados para outros portos, o investimento de centenas de milhões de euros anunciado pelo concessionário do Terminal de Contentores de Alcântara continua congelado devido ao impasse negocial no processo de expansão deste terminal, o mais importante do porto de Lisboa?
  • Sabia que os intermediários e comissionistas que gravitam à volta dos portos facturam muitos mais milhões se os portos forem empurrados para longe dos centros de produção e consumo das cargas transportadas por via marítima, como parecem ser os anseios de muitos interesses económico-políticos relativamente ao porto de Lisboa?

O SEAL não defende um recurso excessivo a trabalho suplementar até porque tem consciência do desemprego elevado que ainda existe neste País, mas as 850 horas acordadas foram o resultado do equilíbrio encontrado entre a redução no volume brutal de trabalho suplementar que éramos obrigados a realizar, a manutenção de salários dignos e a criação de emprego permanente para novos trabalhadores, acordo esse que, recordamos, foi alcançado num ambiente de ameaça real de despedimento colectivo. O despedimento colectivo não se verificou e, pelo contrário, algumas dezenas de trabalhadores foram admitidos em Lisboa com contrato permanente, na sequência do “acordo das 850 horas”.

Este acordo surge também porque, durante o processo negocial, o SEAL rejeitou liminarmente a proposta patronal de criação de um banco de horas o qual, associado à mina da precariedade, permitiria aos patrões responder, com ganhos enormes e sem custos, às oscilações de trabalho no porto. Defendemos que o trabalho suplementar, a existir, deve ser exercido preferencialmente numa base de voluntariado, mas sempre pago em conformidade, porque a padaria, o banco ou o senhorio, e a escola dos nossos filhos não aceitam descanso como forma de pagamento.

Existem outras razões para defendermos um volume superior ao legislado quanto a limites para a execução de trabalho suplementar nos portos, tal como a própria Lei PSD do Trabalho Portuário expressamente consagra e admite, por acordo, em sede de negociação colectiva:

  • A flutuação de trabalho no sector portuário é das maiores, se não a maior, relativamente a qualquer outro sector de actividade porque as nossas fábricas, que são os navios, entram e saem todos os dias, num ritmo dinâmico, irregular e tendencialmente aleatório;
  • Os portos estão abertos praticamente todos os dias do ano o que origina uma considerável parte do trabalho em Lisboa apenas concentrada em fins-de-semana e feriados, sendo todo, por definição, suplementar;
  • Sendo as profissões portuárias cada dia mais tecnológicas e especializadas, face à referida concentração de trabalho em fins-de-semana e feriados, se não fosse estabelecido um limite de trabalho suplementar superior, os portos iriam ser obrigados a parar frequentemente por falta de profissionais;
  • Ao contrário do que papagueiam os comentadores avençados PSD e afins, um salário minimamente digno nos portos apenas se consegue, para a grande maioria dos seus profissionais, com alguma incorporação de trabalho suplementar.

Após todas estas explicações devidas aos portugueses, a pergunta que nos colocamos é esta: o que leva o PSD a fazer chicana política com as 850 horas que legalmente acordámos em Lisboa, apoiados em legislação imposta pelo próprio PSD, quando o mesmo partido sancionou no caso de Leixões (com base na mesma legislação) o limite de 3.000 horas, ou até a ausência de qualquer limite? A única resposta que encontramos é a do Capital que o controla.

Talvez esta subserviência ao Capital explique a intervenção absurda do líder da bancada parlamentar do PSD na Assembleia da República.

Os mesmos patrões que já nos obrigaram a 3.000 horas de trabalho suplementar anual pretendem agora impedir os trabalhadores, ou grande parte deles, do recurso a qualquer trabalho suplementar, tendo como objectivo voltar a invadir o porto de Lisboa com a precariedade que, entretanto, restringimos fortemente com as contratações permanentes verificadas, e pelas quais lutaremos, em Lisboa e nos restantes portos nacionais, contra tudo e contra todos.

Os patrões de Lisboa, que são praticamente os mesmos de Leixões, têm vindo a criar um ambiente caótico no porto da capital. Naturalmente, os estivadores de Lisboa não deixarão de reagir às violações e incumprimentos dos acordos assinados, às discriminações na distribuição equitativa dos rendimentos, tal como assinadas no CCT, à persistência no congelamento salarial, com quase uma década, ao caos que de diversas e perversas formas se instala no porto de Lisboa, pelo que também entendemos esta iniciativa parlamentar como mais uma encomenda dos seus patrocinadores para envenenar a opinião pública.

Para finalizar, concluímos que, na sequência das anteriores iniciativas legislativas e empresariais, a todos os títulos ignóbeis, continua a desenvolver-se o ataque terrorista do PSD contra o porto de Lisboa, contra os seus profissionais e, mais importante que tudo, contra os habitantes de Lisboa e a economia do enorme território que o seu porto serve.

Sabia que uma vez foi perguntado a um dos pontas de lança destes interesses financeiros, imobiliários e turísticos que actuam na penumbra, Miguel Sousa Tavares: “Sabe quanto custa, ou melhor, que custo tem para os habitantes de Lisboa, a destruição do porto de Lisboa?”. A não resposta que tivemos foi apenas: “Essa não é a pergunta que deve ser feita agora”.

Pois essa é a pergunta que deve ser feita sempre, se queremos pensar o futuro de Lisboa.

“Sabe quanto custa, ou melhor, que custo tem para os habitantes de Lisboa, a destruição do porto de Lisboa?”

Negociação do ACT para o porto da Figueira da Foz

A partir do modelo de CCT (Contrato Colectivo de Trabalho) de Lisboa, o SEAL e os seus associados da Figueira da Foz alcançaram novo acordo histórico

O SEAL (Sindicato dos Estivadores e da Actividade Logística) conseguiu chegar a acordo com as empresas portuárias da Figueira da Foz relativamente a alguns capítulos do futuro ACT (Acordo Colectivo de Trabalho), os quais integram aspectos essenciais para a melhoria da qualidade do emprego dos estivadores que desenvolvem a sua actividade profissional neste porto.

Dentro dos objectivos nacionais a que este Sindicato se propôs, foi possível elevar os níveis salariais para os valores superiores acordados em 2016 para o porto de Lisboa.

Os anunciados objectivos de incremento salarial foram alcançados através do processo de integração de diversos subsídios bem como de parte dos ganhos económicos resultantes da projectada diminuição nos volumes do trabalho suplementar.

Foi ainda assinada uma actualização de todas as matérias de expressão pecuniária, indexada ao aumento a acordar para o porto de Lisboa, salvaguardada a garantia de um aumento mínimo de 4%, com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro de 2017.

Claramente inserida na nossa luta permanente de combate à precariedade, acordámos um incremento superior a 50% no número de trabalhadores permanentes, ou com ocupação regular no porto, através da assinatura de novos contratos de trabalho sem termo e do direito que alguns trabalhadores precários vão ter para trabalharem um turno diário antes de qualquer trabalhador do porto da Figueira da Foz ser colocado a realizar trabalho suplementar.

Tudo faremos para que estes avanços não se fiquem por aqui, na caminhada que encetámos de negociação de Instrumentos de Regulação Colectiva de Trabalho em todos os portos onde o SEAL se encontre presente. O Contrato Colectivo para o porto de Setúbal encontra-se igualmente em fase adiantada de negociação. Prosseguiremos os mesmos objectivos nos restantes portos do País onde detemos representatividade.

Vamos continuar focados nas perspectivas da gradual eliminação da precariedade laboral nos portos e da melhoria das condições de trabalho dos seus profissionais, incluindo o aumento progressivo das respectivas contrapartidas salariais para níveis que, a todos, permitam retirar da segurança do seu trabalho os rendimentos adequados para viver uma vida digna.

Por um Contrato Colectivo de Trabalho de âmbito nacional para todos os estivadores!

Em pdf aqui

Um paralelo entre a estiva e a “A Fábrica de Nada”

Apresentação de António Mariano no próximo Sábado, dia 30 de Outubro, às 21h, no Cinema Ideal (restante programa de debates aqui). 

Nos conflitos laborais, os efeitos nos trabalhadores em luta nem sempre são visíveis para quem não acompanha o seu quotidiano. Problemas familiares da mais diversa ordem, conflitos de interesses entre trabalhadores mais velhos e/ou mais novos, com mais ou menos direitos garantidos, contradições entre partidos, sindicatos e até clubes de futebol, enfim, dentro do que de fora parece uma massa uniforme, muitas vezes ridicularizada por essa característica falsa, existe na verdade um mosaico tão variado e complexo que poucas são as peças que se repetem.

Uma das apostas ganhas no filme “A Fábrica do Nada” é a escolha deliberada por planos lentos, uma excelente forma de evidenciar as dúvidas, as angústias, o acumular de tensões que o arrastamento do conflito provoca na vertente psicológica dos trabalhadores em luta e o impacto que isso tem, não só nas suas vidas, mas também na corrosão do quotidiano de todas as pessoas que com eles se relacionam.

A sátira aos administradores, nomeadamente a personificada na directora de RH, deixa claro que o filme compreende ambos os campos em conflito, mas tal compreensão não o impede de usar a ironia, o humor e algum sarcasmo na forma como também tem coragem de abordar “o nosso lado”. Ao excelente retrato dos “gestores” que são contratados para “descontratar” os espoliados do trabalho, com a argumentação ultrajante de que o destruir de uma vida constitui uma oportunidade, soma-se o retrato do jovem suburbano que prefere negociar individualmente para poder ser feliz numas férias exóticas na Ásia.

Dentro do debate sindical que o filme aborda, sublinho a importância que é dada, em vários momentos, à importância da unidade da acção, sem que ela implique unidade de pensamento. Na estiva, conhecemos bem essa realidade, pois um dos grandes desafios com que nos deparamos constantemente é o de manter a unidade entre os trabalhadores em luta, incluindo com aqueles que são contratados para nos dividir e/ou substituir com menos direitos, com salários mais baixos e condições mais frágeis.

Na fábrica da Otis, tal como na Estiva, somos trabalhadores que o capital tenta atirar uns contra os outros, usando um leque tão diverso de armas que a única opção que resta aos trabalhadores com capacidade para enfrentar tais pressões é a de manter ao máximo a sua unidade, fazendo prevalecer a ideia-força de que a força do todo é maior do que a soma das partes.

Por estas e outras razões, que voltaram ao debate desde o passado dia 30, este filme premiado que passa no cinema Ideal (ver calendário de sessões aqui) e noutras salas do País, tem recebido justamente o reconhecido aplauso da crítica e do público e terá, seguramente, o aplauso dos estivadores que encontram na luta dos trabalhadores da “Fábrica de Nada” muitos paralelos com a sua própria história mais recente.