Intervenção da Dra. Maria de Fátima Queiroz na Conferência Internacional: O Mundo do Trabalho Portuário: “Processo Saúde/Doença e sua Relação com a Organização do Trabalho: Estudo com os Estivadores dos Portos de Lisboa, Sines e Figueira da Foz”

Dra. Maria de Fátima Queiroz (UNIFESP-Brasil, UNL-Portugal)

“Processo Saúde/Doença e sua Relação com a Organização do Trabalho: Estudo com os Estivadores dos Portos de Lisboa, Sines e Figueira da Foz”

A organização do trabalho aborda a forma como o trabalho é planeado, estruturado, supervisionado e avaliado. Pode ser considerada a divisão do trabalho e a divisão dos homens. Os detentores do capital, representados nos portos portugueses, e mundiais, pelas empresas portuárias e armadores, consideram que a organização do trabalho é de sua competência e só a elas cabe a determinação de como o trabalho deve ser realizado. Como os interesses do capital são voltados para o lucro desenfreado e para a exploração dos trabalhadores, implementa-se nos portos portugueses uma organização do trabalho ancorada em conceitos ideológicos do taylorismo/fordismo. Quem pensa o trabalho não é aquele que o executa. O trabalho dos estivadores que antes era construído na comunidade passa a ser executado de forma a cumprir com metas do capital globalizado e esses trabalhadores são desqualificados nas suas lutas por melhores condições de trabalho desenvolvidas pela organização sindical dos trabalhadores nos portos. De acordo com Sadi Dal Rosso (2008)* o trabalho tem-se intensificado, ou seja, mais trabalho realizado em menor tempo. Assim ocorre a exigência de maior empenho e maior dispêndio das capacidades cognitivas, físicas e emotivas do trabalhador. A precarização do trabalho acontece nos portos portugueses e as condições de trabalho se deterioram. Observam-se maquinarias e equipamentos obsoletos e sem manutenção adequada; a pressão das operadoras (através de seus representantes na muralha) para que os estivadores finalizem os navios em tempo exíguo. Depara-se com a falta de investimento na formação dos trabalhadores, a deficiência no número de trabalhadores contrapondo com a obrigação de atingir médias de movimentos por hora e o desenvolvimento de um modelo de organização que privilegia os conflitos entre trabalhadores ao se estabelecer a promoção na carreira não por mérito e sim por relações pessoais, modelo este próprio da dominação capitalista. Neste contexto é, por vezes, exigido que o trabalhador execute mais do que uma tarefa ao mesmo tempo sob alta responsabilidade com a carga e com a vida dos outros trabalhadores, na jornada de trabalho. Os factores apresentados concorrem como determinantes do processo de saúde ou de adoecimento dos trabalhadores. Nestas condições ocorrem o acidente de trabalho, o adoecimento por fadiga e por lesões osteomusculares relacionadas com o trabalho, bem como as doenças que afectam a saúde mental, como é o caso das depressões geradas pelo trabalho. No caminho do conhecimento da situação do trabalho e saúde nos portos portugueses foi desenvolvida a pesquisa  “Trabalho e Saúde dos Trabalhadores Portuários de Lisboa, Sines e Figueira da Foz: estudo comparativo com o Porto de Santos-Brasil”, entre Fevereiro e Dezembro de 2015, contando com a participação dos estivadores dos três portos na fase quantitativa (questionários) e qualitativa (entrevistas) da pesquisa e ainda no desenvolvimento da Análise Ergonómica não exaustiva de situações de trabalho no porto de Lisboa. A pesquisa desenvolveu-se com a colaboração entre UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), UNL (Universidade Nova de Lisboa) e SETC (Sindicato dos Estivadores, trabalhadores do tráfego e Conferentes do centro e sul de Portugal) e financiamento (bolsa pós-doutorado) da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Brasil). Os resultados da pesquisa serão apresentados na Conferência Internacional “O Mundo do Trabalho Portuário”.

*Sadi Dal Rosso. (2008). Mais trabalho! A intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora Boitempo.

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