Um paralelo entre a estiva e a “A Fábrica de Nada”

Apresentação de António Mariano no próximo Sábado, dia 30 de Outubro, às 21h, no Cinema Ideal (restante programa de debates aqui). 

Nos conflitos laborais, os efeitos nos trabalhadores em luta nem sempre são visíveis para quem não acompanha o seu quotidiano. Problemas familiares da mais diversa ordem, conflitos de interesses entre trabalhadores mais velhos e/ou mais novos, com mais ou menos direitos garantidos, contradições entre partidos, sindicatos e até clubes de futebol, enfim, dentro do que de fora parece uma massa uniforme, muitas vezes ridicularizada por essa característica falsa, existe na verdade um mosaico tão variado e complexo que poucas são as peças que se repetem.

Uma das apostas ganhas no filme “A Fábrica do Nada” é a escolha deliberada por planos lentos, uma excelente forma de evidenciar as dúvidas, as angústias, o acumular de tensões que o arrastamento do conflito provoca na vertente psicológica dos trabalhadores em luta e o impacto que isso tem, não só nas suas vidas, mas também na corrosão do quotidiano de todas as pessoas que com eles se relacionam.

A sátira aos administradores, nomeadamente a personificada na directora de RH, deixa claro que o filme compreende ambos os campos em conflito, mas tal compreensão não o impede de usar a ironia, o humor e algum sarcasmo na forma como também tem coragem de abordar “o nosso lado”. Ao excelente retrato dos “gestores” que são contratados para “descontratar” os espoliados do trabalho, com a argumentação ultrajante de que o destruir de uma vida constitui uma oportunidade, soma-se o retrato do jovem suburbano que prefere negociar individualmente para poder ser feliz numas férias exóticas na Ásia.

Dentro do debate sindical que o filme aborda, sublinho a importância que é dada, em vários momentos, à importância da unidade da acção, sem que ela implique unidade de pensamento. Na estiva, conhecemos bem essa realidade, pois um dos grandes desafios com que nos deparamos constantemente é o de manter a unidade entre os trabalhadores em luta, incluindo com aqueles que são contratados para nos dividir e/ou substituir com menos direitos, com salários mais baixos e condições mais frágeis.

Na fábrica da Otis, tal como na Estiva, somos trabalhadores que o capital tenta atirar uns contra os outros, usando um leque tão diverso de armas que a única opção que resta aos trabalhadores com capacidade para enfrentar tais pressões é a de manter ao máximo a sua unidade, fazendo prevalecer a ideia-força de que a força do todo é maior do que a soma das partes.

Por estas e outras razões, que voltaram ao debate desde o passado dia 30, este filme premiado que passa no cinema Ideal (ver calendário de sessões aqui) e noutras salas do País, tem recebido justamente o reconhecido aplauso da crítica e do público e terá, seguramente, o aplauso dos estivadores que encontram na luta dos trabalhadores da “Fábrica de Nada” muitos paralelos com a sua própria história mais recente.

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“A Fábrica de Nada”

Um filme fundamental sobre algumas das questões que se colocam aos trabalhadores, sejam eles quais forem. O que fazer perante as agressões a que são sujeitos? Como defender os postos de trabalho e as unidades de produção da precariedade e da deslocalização? Como resistir à chantagem e à coação psicológica? Como superar as contradições entre os próprios trabalhadores, garantindo a unidade fundamental para que se ganhem processos de luta? “A Fábrica do Nada” levanta esta e outras questões, num filme que merece ser visto, divulgado e debatido.

Participa nas sessões especiais. Calendário em anexo:

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